Uma abordagem às culturas populares e às bordadeiras de Arraiolos
A visita a Arraiolos foi muito agradável e enriquecedora. Arraiolos é uma vila portuguesa situada no Distrito de Évora, com cerca de 3,500 habitantes, conhecida pelos seus tapetes e pelo seu castelo, que é circular.
Os tapetes são bordados à mão por gerações e gerações de bordadeiras. No Centro Interpretativo "Tapete de Arraiolos" tivemos a sorte de conversar um pouco com dois bordadeiras que trabalham no Centro, e também de ver como elas fazem os tapetes. Sendo tão culturalmente enraizados, são um exemplo de como trabalho, música, ritmo, criatividade, história... se entrelaçam.
"Segundo Lobo (2016), existem várias teorias sobre a origem dos tapetes de Arraiolos, uma das quais da autoria de Sousa Viterbo, que defende que estes podem ter origens mouriscas. Esta tese foi completada posteriormente por Maria José Mendonça, que referea possibilidade de a origem ser derivada dos tapeteiros muçulmanos de Lisboa que,após o êxodo ordenado por D. Manuel em 1496, migraram para sul e transmitiram a tradição de fabrico de tapetes aos arraiolenses, que posteriormente os adaptaram aos materiais e técnicas existentes no local, tomando em conta Arraiolos ser uma região pecuária com uma elevada predominância de atividade têxtil".
No museu há um vídeo, que não encontrei na internet, em que uma bordadeira conta como passa por todo o processo de criação de tapetes, blusas e outras criações de costura. A bordadeira iniciou o processo quando o pastor trouxe sua lã, que ela teve que lavar no rio com muita energia e muito trabalho, batendo e lavando-a várias vezes. Mais tarde, ela a levou em uma cesta para a cidade em um burro e com a ajuda do pastor (encharcada, a lã pesava muito). Filou-a pouco a pouco, para obter fios longos que poderiam ser enganchados à máquina de tricotar artesanal, e tingiu os fios de cores diferentes (no vídeo você pode ver algumas dessas máquinas). Na máquina de bordar, trabalhava com as linhas e suportes usando o movimento de suas pernas e pés para mover a máquina e os braços e mãos para cruzar as linhas e pressionando-os fortemente com o apoio que aperta os pontos. Uma vez concluída a tecelagem, o processo de bordado começa.
Como você pode ver, o processo é muito longo e faz parte de um modo de vida e de entender o trabalho como uma parte inseparável da vida. Durante todo o processo, a bordadora canta de maneiras diferentes, ritmos diferentes que acompanham cada trabalho. No final do vídeo, a bordadeira exibe com orgulho suas criações, fruto de seu esforço, criatividade, imaginação, conhecimento popular e perseverança.
Arraiolos desde o castelo
O principal problema de Arraiolos é a turistificação que enfrenta, já que o turismo mata a vida social cotidiana, como aconteceu em muitos lugares. Com a promessa de gerar emprego e riqueza econômica, o turismo expulsa os moradores a abrir alojamentos turísticos, torna as moradias mais caras e gera empregos precários, além de encurralar as pessoas, transformando suas vidas diárias em algo exótico. Em Arraiolos, parece que o turismo está ganhando, devido à atração de seus tapetes, mas será visto, porque seus habitantes têm um histórico de lutas e envolvimento social.
Rua de Arraiolos
Depois de compartilhar esse tempo com algumas pessoas de Arraiolos, nas ruas, nas tasquinhas, e comer migas com carapau e ensopado de borrego, decidimos voltar a Évora caminhando pela ecopista, um percurso que atravessa áreas rurais e montado. Este caminho está em harmonia com o ambiente social e natural e é muito agradável para caminhar.
Foram 24 km andando e chegamos muito tarde a Évora, mas foi um passeio muito gostoso!
Castelo de Arraiolos, um dos únicos castelos circulares do mundo
Praça de Arraiolos
Migas, carapau e vinho ;-)
Referências bibliográficas:
Bajuca Nunes, Joana Isabel (2019). Tapetes de arraiolos: oportunidades e desafios de divulgação. Relatório de estágio de Maestría. Universidade de Évora. http://hdl.handle.net/10174/26701
Embora Michel Giacometti seja mais conhecido por seu trabalho "Povo que canta", o projeto que ele coordenou do serviço cívico estudantil foi uma fonte de inspiração para começar a trabalhar em 1995 em alguns projetos de pesquisa e dinamização da comunidade usando a ferramenta histórias orais . No auge da efervescência desencadeada pela Revolução dos Cravos (o Revolução de 25 de Abril), 124 adolescentes, de ambos os sexos, passam o Verão de 1975 dedicados a uma acção concertada de recolha de cultura popular, em resposta a um apelo de Michel Giacometti. Foram ministradas as noções básicas de trabalho de campo num curso intensivo de 8 dias, e depois, equipas de quatro estudantes pesquisaram 90 localidades em três meses, três localidades por equipa. "O Serviço Cívico Estudantil foi possibilitado através do Decreto-Lei N.º 270/75 de 30 de maio. O programa pretendia assegurar aos estudantes uma melhor “integração na sociedade portuguesa e um mais amplo contacto com os...
Trazemos boas notícias!!! Apesar de ainda estarmos confinados, estamos alegres: o artigo sobre histórias orais foi aceito. Concluímos este artigo graças à bibliografia encontrada na Universidade de Évora e no centro de documentação do Museu do Trabalho de Setúbal. Algums posts relacionados neste blog: Algumas notas sobre oralidade Museu do Trabalho Michel Giacometti de Setúbal Achados bibliográficos interessantes na Universidade de Évora Dois referências sobre oralidade de Jorge Freitas Branco Pesquisando na estada en Évora: algumas descobertas Ainda não podemos publicar o artigo aqui, mas assim que for publicado, adicionaremos mais textos a este blog. Mas podemos deixar aqui a lista de referências bibliográficas, caso você as ache úteis: Cómo citar / citation Encina, Javier, Ezeiza, Ainhoa y Delgado de Frutos, Nahia. (2020). “Historias orales como herramienta para la convivencialidad”, Estudios de la Paz y el Conflicto, Revista Latinoamericana, Volumen X...
Em Beja, visitamos a exposição de Artur Pastor no Centro Unesco . Conforme explicado no site do município: "Artur Pastor foi um dos grandes fotógrafos portugueses do século XX. Alentejano, nasceu em Alter do Chão em 1922, e aos 3 anos de idade foi viver para Évora tendo vindo, posteriormente, a frequentar a Escola de Regentes Agrícolas de Évora, onde concluiu o curso de regente agrícola em 1951. Tornou-se fotógrafo do Ministério da Agricultura e criador do Arquivo Fotográfico desta instituição, para o qual trabalhou toda a vida. É indiscutível a qualidade do corpo de imagens que Artur Pastor produziu ao longo da sua vida. Retratou Portugal de lés-a-lés com um rigor de arquivista e um dom de poeta da imagem. Do Alentejo são muitos os seus trabalhos e nesta exposição estarão em exibição 70 imagens organizadas em dois núcleos: um primeiro dedicado a ilustrar as capturas que Pastor efectuou dentro do perímetro urbano de Beja e um segundo núcleo dedicado ao imenso campo alentejan...
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